O incortonável Marx

José Alcimar de Oliveira *

Imagem: Marx (https://beduka.com/blog/materias/filosofia/principais-ideias-karl-marx/)

*José Alcimar

Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem (Marx)

01. Mesmo depois do período do grande racionalismo da filosofia moderna ainda é possível (e talvez necessário) pensar a questão do conhecimento contra e a favor de Kant, mas para quem deseja pensar o processo cognitivo com a devida honestidade intelectual e epistemológica, é impossível fazê-lo sem a incontornável contribuição kantiana.  ...  Ver mais

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Brecht e as mães-coragem de Jacarezinho: sete notas marginais

Foto: site PT Nacional (Renato Mouro/A Voz das Comunidades)

José Alcimar de Oliveira*

Mãe Coragem: Por quanto tempo é que não tolera injustiça? Por uma hora, ou duas? Pense bem! Nunca se perguntou isto, embora seja a coisa mais importante: porque é uma desgraça, na prisão, quando a gente percebe de repente que já está tolerando a injustiça. (Brecht, Mãe Coragem e seus filhos). ...  Ver mais

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Fetichismo da ignorância e aversão à teoria: notas sobre Marx e Paulo Freire

(…) sempre me movo em contradições dialéticas
(Marx, carta a Kugelmann, 17 de março de 1868

01. Há 24 anos, em 02 de maio de 1997, o Brasil perdeu o filósofo e educador Paulo Freire. Neste 2021 trazemos à memória o centenário de seu nascimento. Assim como Gramsci se referia ao Mouro de Trier como o filósofo da práxis, a Paulo Freire nos referimos como o educador da práxis. Na quarta parte do primeiro capítulo do livro primeiro de O capital Marx analisa a mercadoria sob o aspecto de sua compreensão fetichizada, sob o título de O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: a mercadoria se apresenta aos seus produtores na forma de “uma relação social que existe não entre eles próprios, produtores, mas entre os produtos de seus trabalhos”. No caso, a relação social entre um marceneiro e uma costureira aparece como relação entre a mesa e a toalha, como coisas trocáveis e possuidoras de valor de troca, não propriamente em função do trabalho nelas materializado. Ao fundar sua filosofia da educação na práxis, Paulo Freire concebe o trabalho educativo como espaço de crítica e superação da relação fetichizada entre o trabalhador e o produto do seu trabalho. 02. Segundo Marx, o poder e o alcance do modo capitalista de produção se afirmam de forma local e global como um processo de mercantilização de coisas e pessoas. O caráter mercantil da produção personifica coisas e coisifica pessoas. Ao analisar o caráter fetichista da forma mercadoria, Marx nos diz que “se as mercadorias pudessem falar, diriam: é possível que nosso valor de uso interesse ao homem”. Sob o império do fetiche, o trabalhador não consegue objetivar que o valor de uso oculta o valor de troca e os dois ocultam o valor-trabalho. Paulo Freire chega a Marx pela dialética do tijolo. Ao propor uma filosofia da alfabetização de adultos a partir das relações coronelistas de trabalho vigentes no Nordeste dos anos de 1960 e não diferentes em 2021, Paulo Freire, num círculo pedagógico dialético, em diálogo com o oprimido, situou o tijolo na cadeia de opressão e exploração das relações capitalistas de produção.  ...  Ver mais

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“Ainda bem que temos o Alencar”

Paciente atendido em unidade pública quando o sistema de saúde do AM colapsou, em abril de 2020

“Ainda bem que temos o Alencar”. Esta frase consta num dos diálogos extraídos dos telefones apreendidos na Operação Sangria. É a resposta de uma amiga da mulher do empresário e ex-policial Gutemberg Alencar, Helen Belota, após ouvir dela detalhes sobre o esforço do marido na compra de respiradores para o Governo do Amazonas.  ...  Ver mais

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AM: Juíza determina aplicação urgente de 3.425 vacinas que vão vencer em três dias

Foto: Divulgação/FVS

A juíza da 1a Vara Federal, Jaiza Fraixe, determinou que prefeitos do Amazonas apliquem com urgência 3.425 vacinas contra a Covid-19, cujo prazo de validade vence em três dias.

A determinação foi feita por meio de um despacho numa ação civil pública que apura irregularidades na vacinação no Amazonas movida por órgãos de controle desde janeiro e que pode gerar contra os gestores uma ação de improbidade administrativa. ...  Ver mais

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Desfazer a farsa: não há vida nem educação remota

Foto: Álvaro Henrique / Secretaria de Educação do DF

José Alcimar de Oliveira *

Quem se mata de trabalhar merece mesmo morrer (Millôr Fernandes)

          Um fator pouco considerado na objetivação do que é a tragédia da educação brasileira é a negação política, por parte de nossa contente autocracia burguesa, das consequências sociais dessa tragédia. O espírito animal e empreendedor da autocracia burguesa sabe bem, com suas mãos sujas, como tirar proveito dessa tragédia. Durmeval Trigueiro Mendes, pensador pouco frequentado, senão hostilizado, pelos tecnocratas da educação, ao analisar o processo político da educação brasileira cumpriu sem meias medidas com as exigências do pensar filosófico na acepção do velho Horkheimer: “esforço consciente para unir todo o nosso conhecimento e penetrar dentro de uma estrutura linguística em que as coisas são chamadas pelos seus nomes corretos”.  ...  Ver mais

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Filosofia, mentira viral e decadência da verdade

Imagem: https://www.arquidiocesedegoiania.org.br/comunicacao/vida-crista/163-dizer-a-verdade-e-desdizer-as-mentiras

José Alcimar de Oliveira *

Afinal, que vem a ser uma bela mentira? A que se torna evidente por si mesma (Oscar Wilde).

          01. Data de 1891 um célebre ensaio de Oscar Wilde intitulado A decadência da mentira. Segundo Wilde, a mentira deve ser celebrada na Arte, com maiúscula. Submetida aos artifícios políticos, a mentira se torna decadente. Somente a Arte eleva a mentira. A política a degrada. A única forma de Arte da política reside na verdade. Na verdade ontológica, distinta da verdade lógica. Não se trata aqui de objetivar a oposição entre uma proposição verdadeira e outra falsa, mas da dialética entre o real verdadeiro e o real aparente, manipulado pela política da mentira.     ...  Ver mais

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Palavra e ontologia: o príncipe do poder do ar e o imbecil mediático

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Imagem: vermelho.org.br/2015/07/30/como-o-brasil-vai-se-imbecilizando-com-uma-midia-imbecil/

José Alcimar de Oliveira *

A fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina (Walter Benjamin)

         

01. Segundo o registro bíblico do teólogo João, autor do quarto evangelho, a única paternidade autoral atribuída a Satanás é a da mentira. O autor que imprime força ontológica à compreensão acerca do ser diabólico é Jesus de Nazaré, formado na Escola Samaritana da Galileia:  “Por que não reconheceis minha linguagem? É porque não podeis escutar a minha palavra. Vós sois do diabo, vosso pai, e quereis realizar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade: quando ele mente, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (grifo nosso)” (Jo 8,43-44).  ...  Ver mais

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Paulo Freire, Álvaro Vieira Pinto e Maíra: o método como essência da consciência

Imagem: Paulo Freire (novaescola.org.br)

José Alcimar de Oliveira *

Mas não seria desejável que a formação cultural do homem da ciência se fizesse apenas pelo estudo abstrato dos métodos lógicos sem a correspondente ligação com a práxis do trabalho científico (Álvaro Vieira Pinto)

01. Neste 2021 o Brasil celebra o centenário de nascimento de seu maior educador, Paulo Freire, nascido em 19 de setembro de 1921. A Pedagogia do oprimido, de 1968, seu livro mais conhecido e objeto de estudo nas principais universidades dos cinco continentes, é a terceira obra na área de ciências sociais e humanas mais citada no mundo, segundo a London School of Economics. Exilado do Brasil pela ditadura empresarial-militar em 1964, Paulo Freire só pôde regressar à sua pátria em 1979 por força da Lei da Anistia e sua volta definitiva ocorreu em 1980, convidado a lecionar na PUC-São Paulo. Em maio de 1982 esteve pela primeira vez em Manaus, calorosamente recebido e saudado pela população, sobretudo estudantes e trabalhadores da educação. A Manaus de 2021 ganharia muito se revisitasse, pelo exercício da memória, a Manaus que recebeu Paulo Freire em 1982. 02. Quase 40 anos depois de sua vinda a Manaus e no ano do centenário de seu nascimento, o Patrono da Educação Brasileira está, há pelo menos cinco anos, sobretudo a partir do golpe jurídico e parlamentar de 2016, submetido à mais retrógrada campanha de desqualificação que já se fez a um pensador brasileiro. Exilado em vida antes e em morte agora. Quanto menos o leem mais o detestam. Enquanto seus leitores sentem-se intimidados e muitos nem ousam pronunciar seu nome, os fanáticos andam à solta, nas instituições de ensino e fora delas. Vítima do ódio e da ignorância de gente boçal e reacionária, Paulo Freire é de outro Brasil. O Brasil de Paulo Freire, o nosso Brasil, é o país da educação “como prática de liberdade”, da educação como “um ato de conhecimento, (como) uma aproximação crítica da realidade”. Em Paulo Freire método não é procedimento técnico, é antes teoria do conhecimento. Não criou um método, mas uma teoria dialética (porque dialógica) da educação. 03. O que ocorre neste 2021 é a demonstração da parte de um Brasil que regride rumo às sombras. É triste verificar, sobretudo nas redes sociais, pessoas que nunca leram uma só linha da grandiosa obra de Paulo Freire seguirem esse andor de ignorância e intolerância. Sou um leitor e admirador de seus livros desde 1978, quando iniciei o Curso de Filosofia e Teologia no antigo Cenesch. Triste do país que desonra seus mestres. Triste do país que promove o fanatismo. O fanático se alimenta da vontade de crença e sua cabeça obstinada é permanentemente reativada por um tipo de dissonância epistemológica, estado cognitivo de uma mentalidade oprimida, fidelizada, que consiste em rejeitar de forma quase instintiva aqueles conteúdos cuja consciência foi programada para rejeitar, independentemente da força objetiva da prova. O fanático é sempre possuído pelo objeto de sua crença. 04. Para falar da grande paternidade, Paulo Freire é um filho legítimo do pensamento dialético de Sócrates, Jesus, Hegel, Marx e dos grandes pensadores e educadores do século XX. A sua pedagogia dialógica, cujo conteúdo classista é devedor da tradição da dialética materialista e histórica, se constitui não a partir do sujeito burguês, pertencente ao que Habermas denomina de uma comunidade ideal de fala, mas antes do sujeito histórico submetido como classe à situação estrutural do mutismo, da impossibilidade de falar de si como oprimido e de falar contra a opressão de classe. O sujeito social histórico a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia do oprimido é revelador de sua opção classista: “aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. 05. Dentre os pensadores e educadores do século XX, um pensador pouco lembrado é Álvaro Vieira Pinto, a quem, na sua Pedagogia do oprimido, Paulo Freire chama de “mestre brasileiro”. A este grande mestre (de Darcy Ribeiro, inclusive) Paulo Freire manifesta seu agradecimento por ter consentido que citasse sua portentosa Ciência e existência: problemas filosóficos da pesquisa científica antes da publicação. Faço questão aqui de mencionar que adquiri das mãos do poeta Dori Carvalho o meu exemplar de Ciência e existência no dia 12 de abril de 1983, na Livraria Maíra, em Manaus. Sob alguns aspectos Manaus já foi bem melhor. Tinha até livraria com selo de Maíra. Já disse mais de uma vez que a melhor definição de Paris, que eu nunca conheci, e que há 150 anos foi palco do primeiro Governo Operário e Comunal da História, me veio de Walter Benjamin: um imenso salão de biblioteca atravessado pelo Sena. Quisera que o maior monumento de Manaus fosse uma biblioteca de frente para o rio Negro. 06. Em homenagem a Álvaro Vieira Pinto, reproduzo uma citação de Ciência e existência feita por Paulo Freire em sua Pedagogia do oprimido: “O método é, na verdade, a forma exterior e materializada em atos, que assume a propriedade fundamental da consciência: a sua intencionalidade. O próprio da consciência é estar com o mundo e este procedimento é permanente e irrecusável. Portanto, a consciência é, em sua essência, um ‘caminho para’ algo que não é ela, que está fora dela, que a circunda e que ela apreende por sua capacidade ideativa. Por definição, a consciência é, pois, método, entendido este no seu sentido de máxima generalidade. Tal é a raiz do método, assim como tal é a essência da consciência, que só existe enquanto faculdade abstrata e metódica”. Diria que pelo método a leitura da palavra, sempre antecedida pela leitura do mundo, é que o oprimido pode dialetizar o mundo e a palavra. 07. Paulo Freire lidava com pessoas, com nome-carne-e-osso, desde o oprimido como classe. Diferentemente da burguesia, flácida e assassina, que lida apenas com números. A burguesia conta com meios para assepsiar a realidade, tergiversar, manipular os fatos. No dia 16 de março de 2021, o Brasil registrou (oficialmente, diga-se) 2798 mortes por Covid-19. Mas a estatística logo naturaliza a tragédia humana e social produzida pela política da morte. Para a linguagem burocrática dos tecnocratas a manipulação está na ponta da língua: como o Brasil tem cerca de 5600 municípios, a conta ficaria em torno de 0,5 morte / dia por município. Tudo dentro e até abaixo do previsível e aceitável pela necrocracia. A morte em série e os riscos de contaminar-se impedem a justa revolta e indignação dos que veem vidas roubadas e famílias destruídas por trás dos números frios da feliz autocracia burguesa. Mas sem justa revolta e indignação ética, necessárias, não cessará a torrente de genocídio desta pandemia, sobretudo devastadora para a classe que vive do trabalho e produz a riqueza de que é impedida de se apropriar.  ...  Ver mais

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