2020, um laboratório de emoções, pressões e ataques diante da responsabilidade de informar

De ontem para hoje fiquei revisitando os acontecimentos de 2020, ação típica de todo final de ano, para avaliar o que foi este que nem parece ter chegado ao fim.

Bom, não foi um ano nada fácil. Desde os primeiros dias, até os últimos momentos do fim.

Parece que couberam vários anos dentro de um só. Na experiência do aprendizado do jornalismo, não teve pergunta sem consequência, pauta sem peso de demonstrações do que querem calar, textos sem excesso de trabalho, palavras e tons que não exigissem elevada  apuração e zelo em função dos ataques à atividade jornalística acentuados neste período.

Não teve folga e nem final de semana. Os acontecimentos, um mais grave que o outro, se avolumavam e não deram tempo de recuperação de fôlego, como, mesmo com a  intensidade peculiar da profissão, costumamos ter em “anos normais”.

Quando começaram as consequência do isolamento, da pandemia meu maior medo estava (e está) no campo oposto aos das ameaças comumente feitas a jornalistas: o de ceder e me fechar nas convicções ou conveniências pessoais e não me ocupar da preocupação com os mais fragilizados. Como humana, como jornalista.

Tem um jornalista o direito de temer perder o emprego ou o sustento de sua família – diante da pressão do poder político e econômico – e ignorar os fatos que vão acentuar as dores da população? Penso que, se optou pelo jornalismo, não.

Experimentei a decepção de ver pessoas com formação e imagem de defesa de uma sociedade plural e democrática  – incompatível com uma imprensa que não seja independente – agirem, publicamente e de bastidores, no sentido contrário.

Ao reverso, usaram os meios mais vergonhosos de tentar intimidar, calar, comprar jornalistas e esconder fatos de interesse público, se associando com o que de pior temos neste período: os que nenhum compromisso têm com a democracia, com o interesse coletivo e o bem comum. E sequer disfarçam suas intenções.

Sim, decepção. Há em mim a propensão em acreditar que as pessoas podem ser melhores.

2020 trouxe pautas que exigiram graus a mais de responsabilidade, do nosso emocional e MUITAS vezes mesmo até de não saber o que fazer diante do choro dos entrevistados.

Choro de perda, de desamparo, de desespero ou de buscar na audiência de um jornalista o último recurso para se queixar de um direito não reconhecido, de uma tentativa de acessar uma sociedade justa ou só para ser ouvid@.

O choro veio de mães e pais sem teto no Monte Horebe ao verem tratores derrubarem o sonho de uma moradia num contexto de abandono do estado e desestrutura e risco social, em março.

De médicos, enfermeiros e familiares sem ter como atender e acessar serviços de saúde no pico da pandemia, em abril e maio. Dos novos formatos de despedidas dos mortos imposto pelo risco de contágio de covid-19 e do acumulado de enterros.

Sentimento de indignação com o que norteou os atos administrativos no momento de maior aflição e sofrimento da pandemia no Amazonas, que vieram à tona com a operação Sangria e a cobertura para o UOL com o jornalista Flávio Costa e o editor Marcos Brito.

Home office com filha em casa,  com todas necessidades domésticas, escolares e de atenção, paciência e carinho. A sobrecarga acentuada que coube ás mulheres neste ano também foi experimentada.

Veio outubro com o desafio de fazer uma cobertura simultânea, isenta equilibrada para três veículos de comunicação: meu blog, a rádio BandNews e o site de notícias UOL. Numa eleição completamente atípica em relação a personagens e cenário político. Uma disputa que exigia mais dos candidatos, da mídia, das instituições, mas que, na balança, ficaram aquém das necessidades de Manaus… As consequências, num ano pandêmico, já começaram.  

Ainda coube, em meio a tudo isso, as não menos trabalhosas coberturas e apurações sobre operações policiais atingindo as mais altas autoridades do Estado e da cidade e motim em presídio.. Também esteve presente o enfrentamento ao tradicional silêncio de autoridades e órgãos de controle que deveriam agir e suas revoltas diante da constatação e negativa de cumplicidade jornalística destes fatos.

Houve ainda as brigas em debate e campanha, que expuseram ameaças a outros colegas, que pude testemunhar. Perguntas simples em coletiva de comitiva do Governo Federal com “interessantes” repercussões… Foi um intensivão, um teste de resistência com muitas lições para não serem esquecidas.

Aliás, perguntar em coletiva e estar presente quando políticos se descompensam viraram outros fatores de risco e desafio para jornalistas. Policiais à paisana, pagos com dinheiro público, a postos para impedir (diante das câmeras!) jornalistas de perguntar foi um ingrediente a mais e ruim de 2020 no Amazonas.

Os próximos desafios, em 2021, devem apontar o que esses calos da experiência do ano pandêmico – como costuma chamar 2020 o professor e filósofo José Alcimar – farão de nós como profissionais da notícia.

Registro, como consequência dessas experiências, o meu mais profundo respeito e reconhecimento a todas as trabalhadoras e todos os trabalhadores da saúde, que ainda serão muito exigidos diante das escolhas e omissões das autoridades. Erros nossos também que os escolhemos para estarem nos postos de comando e poder, neste momento tão grave da nossa história.

Finalizo minhas memórias deste 2020, recorrendo a Paulo de Tarso: “Combati o bom combate, guardei a fé”. Sigo a caminhada. A peleja, para parafrasear meu amigo Edmar Barros.