“Cercado de personagens perigosos, Wilson caminha para rochedo”, afirma vice ao sair do barco

Foto: Mesa de uma das salas da Casa Civil guardava bonecos de Wilson Lima e Carlos Almeida usados na campanha eleitoral de 2018. (Rosiene Carvalho)

Fritado por diferentes grupo na esfera do Governo do Amazonas, o vice-governador, Carlos Almeida Filho (PTB), oficializou a saída dele da Casa Civil, nesta segunda-feira, dia 18, com uma carta enviada ao governador Wilson Lima (PSC).

Nela, o vice-governador diz que abandona o barco por não estar no “timão” e por perceber no entorno do governador “personagens perigosos”, “espectros” que podem levar Wilson ao caminho de “rochedos”.

Numa carta em que adotou tom melancólico, formal e metafórico, Carlos Almeida Filho destacou a si mesmo como um homem de espírito público e honesto.

O defensor público licenciado também fez questão de evidenciar no escrito a Wilson Lima sua dedicação na reconstrução do Estado em meio a pressões de personagens aos quais chama de “espectros” e de tentativas de alertar o governador sobre estas questões.

Na carta, Carlos Almeida se afirma “desiludido” e diz que não seguirá Wilson Lima diante dos atuais rumos. A saída de Carlos Almeida da Casa Civil era tratada como certa desde a quinta-feira, dia 14, nos bastidores.

De vários lados, governistas consideravam que o perfil “trator” e sem preparo para articulações políticas causava danos ao governo. Atribuíam ao vice, o acirramento de confronto com personagens que neste momento atuam no sentido contrário ao governador Wilson Lima.

Na carta, Carlos Almeida diz que a decisão de deixar a Casa Civil e a articulação política do governo iniciou no mesmo dia que fervilharam nos bastidores a informação da saída dele da Casa Civil. Citando a família, Carlos afirma que passou a se questionar sobre que legado que deixaria aos filhos.

“Senhor Governador, nesta última quinta-feira voltei para casa mais cedo que o usual, alquebrado e desiludido (…) Foi assim que pude ver, na inocência dos meus dois filhos bebês, a angústia que me encontrava, pois meus ideais de pai e de homem público se confundem. Que futuro eu construiria para eles?”, afirma trecho da carta.

Na sequência, o vice-governador disse refletir sobre o futuro dele próprio. A carta não cita, mas o Governo do Amazonas enfrenta neste momento uma série de denúncias relacionadas que acusam o executivo de má gestão e suspeita de mau uso do dinheiro público, em investigações no âmbito estadual e federal.

Há ainda um pedido de impeachment em que o vice-governador contratou advogado próprio para manter a função, mesmo que a do governador seja cassada no processo. Além, de uma pandemia que ainda não demonstrou o poder do pico de desgaste do governo, diante do avanço para o interior do estado após resultados terríveis em Manaus.

“Que futuro construiria para mim? E me é obrigado a pensar assim”, questiona o vice-governador na carta.

Carlos Almeida relembra o companheiro de chapa em 2018 que ao chegarem ao poder, ele e Wilson Lima encontraram o estado em “frangalhos” e necessitando de “sério processo de restauração”.

Almeida afirma que “convulsões internas” fizeram com que, em março de 2019, ele assumisse a Casa Civil e a articulação política.

Na ocasião, sem explicação plausível, o governo do Amazonas tirou o então homem forte, o empresário ligado ao grupo Calderaro de Comunicação, Marcelo Alex, da função de articulador político.

A justificativa oficial foi um início de reforma administrativa que nunca se efetivou. Nos bastidores, a informação é que gritos e palavrões foram ouvidos da sala de reunião que precedeu a troca. Na carta, Carlos Almeida classifica o episódio como “convulsão interna” sem, mais uma vez, dar maiores detalhes.

A rigor, em um ano e meio de governo, este é o segundo homem forte do Governo Wilson Lima que perde cargo e força oficial de articulação na máquina. Em meio à crise do sistema de saúde e política, é a terceira troca de secretário de estado.

Em relação ao trio da campanha de 2018, Carlos deixa a linha de frente nove meses após a saída de Luiz Castro da Seduc, que também alegou ser atacado por aqueles que não queriam que o Amazonas mudasse.

“Com toda a dedicação e espírito público, empreguei toda a energia que pude na pasta da Saúde, contudo as convulsões internas de março de 2019 fizeram com que o Senhor me chamasse à Casa Civil, onde o trabalho de reconstrução deveria ser feito, aliado à articulação política”, diz o vice em outro trecho.

Almeida diz ter se dedicado com “lealdade e perseverança” ao Governo de Wilson Lima. Na verdade, foi bem além deste limite comum aos vices. Em vários momentos, era buscado e tratado como figura central, ofuscando, como nunca se viu na história do Amazonas, o titular do governo.

Governo navega em “águas tormentosas”

Na carta dirigida ao governador Wilson Lima, Carlos recorre a personagens da mitologia grega para afirmar que o governo navega por “águas tormentosas” e que enfrenta Cila e Caríbdis, dois monstros da Odisseia, de Homero, que Ulisses precisou decidir enfrentar.

Os dois monstros se localizavam em lados opostos do estreito de Messina. A expressão “entre Cila e Caríbdis”  é recurso de linguagem para quem quer dizer que uma pessoas precisa decidir entre dois males. O vice-governador insinua que os “monstros” podem estar dentro do próprio governo.

“Em Política não é diferente, e personagens tão ou mais perigosos se encontram em todos os lugares, às vezes, até mesmo dentro nosso próprio barco”, afirma o vice.

Carlos Almeida afirma que “o papel dele” no governo foi de tentar “blindar o Estado” contra “estes espectros”, que ele não nomina. E disse que alertou “sempre” sobre os “caminhos” para que Wilson não tombe em “rochedos”.

“Meu papel, enquanto homem público, preocupado em fixar mais um tijolo na construção de um Amazonas melhor, foi sempre de blindar meu Estado contra esses Espectros, alertando-lhe, sempre, dos caminhos a serem seguidos, para não tombar nos rochedos”, declara o vice-governador.

A condução do barco, segundo o vice-governador, está em outras mãos, que não as dele. Carlos Almeida afirma que esgotou a energia para “remar forte no sentido oposto”. A embarcação que o vice usa para se referir ao governo é a galé, navio que navegava a partir da propulsão de vários remos.

“Todavia, a despeito de todo meu esforço, não estou com a mão no timão, e já exauri minhas forças remando forte no sentido oposto de muitos nessa Galé”, diz o vice em outro trecho.

Ao anunciar seu pedido de exoneração, o vice-governador dá mais um recado ao governador e ao público com a conotação de quem busca descolar a imagem de ambos:

“Afirmo-lhe não seguir pelos atuais rumos”, declara o vice ao governador Wilson Lima.

Governador

Ao comentar a carta do vice-governador nas redes sociais, o governador Wilson Lima ignorou todo o teor do texto em que Carlos Almeida expõe tom crítico ao se afastar da Casa Civil.

O governador “reconhece” a contribuição de Carlos Almeida no governo e diz que ele se dedicará a atribuições ligadas à pauta dele como defensor público que é a questão fundiária e de moradias.

“Como disse na carta, temos muito em comum: famílias que sempre nos incentivaram a escolher a retidão e deixar um mundo melhor para os nossos filhos e para os filhos de todos os amazonenses. E, para isso, precisa-se realmente de espírito público, mais um traço em comum que nos une”.

O governador acrescenta: “Em nossa conversa na manhã de hoje, reafirmamos esses conceitos e ficou decidido que como vice-governador há muito o que contribuir às causas que sempre lhe foram muito caras: como a questão da moradia, pelo qual luta desde a época da Defensoria Pública”.

Veja carta do vice-governador, na íntegra:

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