Nina (2006-2021) e a utopia de baleia

Foto: Nina (arquivo pessoal José Alcimar)

José Alcimar de Oliveira*

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos enormes (Graciliano Ramos). ...  Ver mais

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A política como força teórica do povo e o poder dos becos, ruas e praças

Foto: Protesto pelas 500 mil vítimas da pandemia no Brasil e contra o presidente Bolsonaro (Rosiene Carvalho)

José Alcimar de Oliveira *

O bem comum da humanidade não é solúvel na privatização do mundo (Daniel Bensaïd).

          01. A política encontra no povo a sua força material. O povo encontra na política a sua força teórica. É somente a praça que pode unir o povo e a política. Não haverá democracia no parlamento enquanto becos, ruas e praças permanecerem vazias. A verdade da democracia do povo implica dois direitos sempre negados pela democracia burguesa: 1) a isonomia como igualdade coletiva diante da lei e 2) a isegoria como o direito coletivo aouso público da palavra.  ...  Ver mais

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Da Cabanagem à Comuna: Manaus se encontra com suas origens

Foto; Protesto contra Bolsonaro, Centro de Manaus. (Rosiene Carvalho)

José Alcimar de Oliveira*

Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; o povo geme, quando o ímpio governa (Pr 29,2).

         

01. Só é possível o encontro livre e criativo entre o direito e a justiça quando o povo se apodera, de forma igualmente livre e criativa, dos becos, ruas e praças. Se não há salvação fora da política, também não há política digna deste nobre conceito (que remete à Pólis, cidade) sem o espaço da ágora (praça). Somente quando o povo ocupa becos, ruas e praças é possível desfazer as trapaças. Política trapaceira se combate na rua. É na rua que a teoria adquire potência material. ...  Ver mais

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Sob o poder do atraso, do mau humor e da ignorância como projeto

Imagem: https://www.ituporanga.sc.gov.br/

José Alcimar de Oliveira *

Ridentem dicere verum / quid vetat? (O que impede de, rindo, dizer a verdade?) (Horácio).

01. 28 de abril de 2021: Dia da Educação. No Brasil, quanto à política educacional, nada a comemorar. O Estado brasileiro, sob férrea tutela do capital, optou por manter o povo sob os grilhões da ignorância. Estamos, como bem afirma José de Souza Martins, sob “o poder do atraso”, no ritmo regressivo do que ele identifica como “sociologia da história lenta”.  ...  Ver mais

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O incortonável Marx

José Alcimar de Oliveira *

Imagem: Marx (https://beduka.com/blog/materias/filosofia/principais-ideias-karl-marx/)

*José Alcimar

Ser radical é agarrar as coisas pela raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem (Marx)

01. Mesmo depois do período do grande racionalismo da filosofia moderna ainda é possível (e talvez necessário) pensar a questão do conhecimento contra e a favor de Kant, mas para quem deseja pensar o processo cognitivo com a devida honestidade intelectual e epistemológica, é impossível fazê-lo sem a incontornável contribuição kantiana.  ...  Ver mais

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Brecht e as mães-coragem de Jacarezinho: sete notas marginais

Foto: site PT Nacional (Renato Mouro/A Voz das Comunidades)

José Alcimar de Oliveira*

Mãe Coragem: Por quanto tempo é que não tolera injustiça? Por uma hora, ou duas? Pense bem! Nunca se perguntou isto, embora seja a coisa mais importante: porque é uma desgraça, na prisão, quando a gente percebe de repente que já está tolerando a injustiça. (Brecht, Mãe Coragem e seus filhos). ...  Ver mais

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Fetichismo da ignorância e aversão à teoria: notas sobre Marx e Paulo Freire

(…) sempre me movo em contradições dialéticas
(Marx, carta a Kugelmann, 17 de março de 1868

01. Há 24 anos, em 02 de maio de 1997, o Brasil perdeu o filósofo e educador Paulo Freire. Neste 2021 trazemos à memória o centenário de seu nascimento. Assim como Gramsci se referia ao Mouro de Trier como o filósofo da práxis, a Paulo Freire nos referimos como o educador da práxis. Na quarta parte do primeiro capítulo do livro primeiro de O capital Marx analisa a mercadoria sob o aspecto de sua compreensão fetichizada, sob o título de O caráter fetichista da mercadoria e seu segredo: a mercadoria se apresenta aos seus produtores na forma de “uma relação social que existe não entre eles próprios, produtores, mas entre os produtos de seus trabalhos”. No caso, a relação social entre um marceneiro e uma costureira aparece como relação entre a mesa e a toalha, como coisas trocáveis e possuidoras de valor de troca, não propriamente em função do trabalho nelas materializado. Ao fundar sua filosofia da educação na práxis, Paulo Freire concebe o trabalho educativo como espaço de crítica e superação da relação fetichizada entre o trabalhador e o produto do seu trabalho. 02. Segundo Marx, o poder e o alcance do modo capitalista de produção se afirmam de forma local e global como um processo de mercantilização de coisas e pessoas. O caráter mercantil da produção personifica coisas e coisifica pessoas. Ao analisar o caráter fetichista da forma mercadoria, Marx nos diz que “se as mercadorias pudessem falar, diriam: é possível que nosso valor de uso interesse ao homem”. Sob o império do fetiche, o trabalhador não consegue objetivar que o valor de uso oculta o valor de troca e os dois ocultam o valor-trabalho. Paulo Freire chega a Marx pela dialética do tijolo. Ao propor uma filosofia da alfabetização de adultos a partir das relações coronelistas de trabalho vigentes no Nordeste dos anos de 1960 e não diferentes em 2021, Paulo Freire, num círculo pedagógico dialético, em diálogo com o oprimido, situou o tijolo na cadeia de opressão e exploração das relações capitalistas de produção.  ...  Ver mais

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Desfazer a farsa: não há vida nem educação remota

Foto: Álvaro Henrique / Secretaria de Educação do DF

José Alcimar de Oliveira *

Quem se mata de trabalhar merece mesmo morrer (Millôr Fernandes)

          Um fator pouco considerado na objetivação do que é a tragédia da educação brasileira é a negação política, por parte de nossa contente autocracia burguesa, das consequências sociais dessa tragédia. O espírito animal e empreendedor da autocracia burguesa sabe bem, com suas mãos sujas, como tirar proveito dessa tragédia. Durmeval Trigueiro Mendes, pensador pouco frequentado, senão hostilizado, pelos tecnocratas da educação, ao analisar o processo político da educação brasileira cumpriu sem meias medidas com as exigências do pensar filosófico na acepção do velho Horkheimer: “esforço consciente para unir todo o nosso conhecimento e penetrar dentro de uma estrutura linguística em que as coisas são chamadas pelos seus nomes corretos”.  ...  Ver mais

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Filosofia, mentira viral e decadência da verdade

Imagem: https://www.arquidiocesedegoiania.org.br/comunicacao/vida-crista/163-dizer-a-verdade-e-desdizer-as-mentiras

José Alcimar de Oliveira *

Afinal, que vem a ser uma bela mentira? A que se torna evidente por si mesma (Oscar Wilde).

          01. Data de 1891 um célebre ensaio de Oscar Wilde intitulado A decadência da mentira. Segundo Wilde, a mentira deve ser celebrada na Arte, com maiúscula. Submetida aos artifícios políticos, a mentira se torna decadente. Somente a Arte eleva a mentira. A política a degrada. A única forma de Arte da política reside na verdade. Na verdade ontológica, distinta da verdade lógica. Não se trata aqui de objetivar a oposição entre uma proposição verdadeira e outra falsa, mas da dialética entre o real verdadeiro e o real aparente, manipulado pela política da mentira.     ...  Ver mais

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