Elis e a Causa de uma vida (Parte 1)

* Por Ygor Cavalcante

Nunca aceitei a morte de Elis. Mais de vinte anos após ter escutado sua voz pela primeira vez, eu ainda me pego censurando a baixinha pelos excessos de efeitos guturais em algumas de suas performances, como se fosse possível ainda hoje evitar danos àquelas – agora inexistentes – cordas vocais.

Eu amo a voz de Elis. Que era mais do que cordas vibrando. Elis era força da natureza, era Águas de Março e todas essas singelezas milagrosas da vida. Era, essa mínima mulher brasileira, um gesto de amor, na pureza do significado da palavra: pura catástrofe transformadora. Viveu intenso amor pelo Brasil, pelo seu povo e por sua “gente fina” particular. Uma mulher de peixes, de altos e baixos, de leveza e explosão, mas, fundamentalmente, amante de seu ofício e de seu povo. Elis era uma Causa. E foi por essa mulher plena de vida e de coragem que me apaixonei.

Como era possível uma mulher com todos aqueles predicados por mim idealizados ter se lançado na cocaína? Neuroticamente, fabricava teorias: foi a ditadura que mandou o Henry Shibata falsificar o atestado do mesmo jeito que fizeram com o Vladimir Herzog!

Não, não, foi a Rita Lee, a “amiga de internato”, com certeza! Talvez tenha sido Fafá! Ou resultado da separação, fim de um casamento, com o César, ele a traiu, ela não suportou! Será que foi o Fábio Jr? Enfim, nada disso se sustenta, mas quero dizer que, mais do que um erro de cálculo entre gozo e vontade de viver, o erro de Elis foi um erro político.

Todos sabemos que Elis foi uma cantora que se preocupou em denunciar os crimes da ditadura civil-militar. Cantava os males sociais e anunciava um futuro democrático de melhoria das condições de trabalho e de direitos no Brasil. Tudo isso pode ser visto desde o início de sua carreira, com Samba eu canto assim, por exemplo, com um repertório que ia de Menino das Laranjas, denunciando a situação de crianças do morro e a situação precária na busca por trabalho nas ruas, passando pela lírica Aleluia, de Edu Lobo, um canto de liberdade e de luta por ideais (“Quem não tem mais nada a perder só vai poder ganhar”), até Preciso aprender a ser só, mais romântica, de apelo dramático, que ninguém jamais cantou melhor.

A pimenta nasceu em meio às dificuldades de abastecimento que atingiram também o Brasil durante a II Guerra Mundial, mas também cresceu nos “anos dourados”: escutou a potente Rádio Nacional; animou-se com o sucesso internacional de Dorival Caymmi e dos bossanovistas liderados por Tom Jobim. Elis aprendeu a sonhar com um país que, à moda populista dos tempos de redemocratização, cresceria cinquenta anos em cinco.  

Também dos anos 1960, poderia indicar esse traço “esquerdopata” em Upa, neguinho!, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri (querido e amado camarada), Roda e Ensaio Geral, do Gilberto Gil – dos tempos em que a tropicália era mais revolucionária e marxista do que contra-cultura, e a belíssima e potente Canção do Sal, do mineiro Deus, o senhor Milton Nascimento, o bituca, para os íntimos.

Nos anos de 1970, Elis continuou sua reinvenção poderosa, estreitando laços com a tropicália de Gal Costa e de Caetano, a quem amava como irmão e como “gênio de sua geração”, peitou a ditadura chamando-os de “gorilas” no estrangeiro; foi alvo de investigação porque cantava Black is Beautiful, alusão aos Black Power e aos Panteras Negras, grupo de esquerda radical anti racista dos Estados Unidos, com Toni Tornado participando da performance com seu punho esquerdo erguido, no programa Som Livre Exportação.

O disco de 1972, recém remixado e remasterizado, é um movimento estético-político por si só e nem precisa ser comentado. Por isso, lembro de Conversando no Bar, também intitulada “Saudades dos Aviões da Panair”, gravada em 1974, música de Milton que revela um ideal importante, a meu ver, que reaparece até o final da carreira de Elis: o futuro passado de um Brasil que ela amou (e sonhou) até que viesse o golpe militar que  destruiu todo esse potencial.

Das mais líricas de Milton, essa canção fala de um menino que guardava armas na memória (“minha arma é o que a memória guarda”) desde que descobriu o mundo se transformando nas asas do avião de uma potente empresa nacional, a Panair do Brasil, sabotada pela ditadura militar.

Era a lembrança de um país que se desenvolvia economicamente e de uma época em que as classes trabalhadoras mobilizaram-se por melhorias (Elis repetia com ênfase em diversas entrevistas que era “filha de operário”, “viveu em vila operária” e era uma “operária da música”.), especialmente na chamada Era Vargas e nos governos a ele ligados por legado político. Um país de festas populares, riquezas naturais e de políticos bonachões, mas também com líderes negros, como em “Almirante Negro”, linda homenagem às lutas inglórias silenciadas na história oficial (branca, patriarcal, heteronormativa e fascistóide) do país.

* Ygor Cavalcante é historiador e professor do Ifam

Fazia escuro, mas Elis cantava! (Parte 2)