Folha de SP relaciona currículo de truculência e suspeita de crimes do secretário de segurança do AM

O jornal Folha de São Paulo publicou matéria sobre a operação Garimpo Urbano em que relacionou no histórico da carreira militar e de agente público do secretário de Estado de Segurança Pública, coronel Louismar Bonates, gestão de truculência e suspeitas de crimes. A reportagem foi veiculada no site do jornal na sexta, dia 9, e publicada na versão impressa neste sábado, dia 10.

A operação Garimpo foi deflagrada na manhã desta sexta-feira, dia 9, e prendeu o secretário executivo de Inteligência do governo do Amazonas, o delegado da Polícia Civil Samir Freire. Homem de confiança do secretário Bonates, Samir é acusado pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do MP-AM (Ministério Público do Estado do Amazonas) da suspeita de roubar ouro de garimpos ilegais com uso da estrutura de pessoal e tecnologia da SSP-AM.

Na reportagem, a Folha destaca que sob a gestão Bonates e Governo Wilson Lima, o Amazonas vive “descontrole” das forças policiais e protagonizou três chacinas com o envolvimentos de policiais.

A primeira é classificada como a ação policial mais violenta registrada no ano de 2017 em todo País. No final desse ano, alegando intervir numa “guerra” entre as facções criminosas Família do Norte e Comando Vermelho, policiais mataram 17 homens no Crespo. Segundo a SSP-AM, todos eram ligados a uma só facção. Metade dos mortos tinha até 23 anos, sendo que pelo menos três eram adolescentes de 17, 16 e um de apenas 14 anos.

Poucos meses depois, a facção que não teve baixa comemorava com fogos de artifício, que foram vistos em todas as zonas da cidade, vitória sobre os adversários e prometia à população de Manaus “mais segurança” e “diminuição do número de homicídios”. Neste episódio, enquanto o inquérito da Polícia Civil concluiu por legítima defesa, uma relatório preliminar do MP-AM com base na perícia admitiu fortes indícios de chacina.

O relato com base na perícia indicou disparos fatais a curta distância, pessoas mortas sem terem pego em arma de fogo, retirada de cadáveres da cena da chacina e montagem de narrativa para dar “licitude aos crimes”. Há cerca de um mês, a BandNews Difusora solicitou informações ao MP-AM sobre as investigações e não havia novidades desde a publicação do relatório preliminar.

Nas horas seguintes à chacina do Crepo, governador e secretário adotaram discursos de incentivo à conduta violenta de policiais.

A reportagem da Folha de SP também lembra as ações violentas no rio Abacaxis sob o comando do secretário Bonates. A suspeita é que a ação da SSP-AM no rio Abacaxis, em Nova Olinda do Norte, em agosto do ano passado, tenha ocorrido mediante abuso policial, violência, tortura e morte de ribeirinhos e indígenas da região sob o comando do secretário da SSP, Louismar Bonates, do comandante da PM-AM, coronel Ayton Norte, que agiram por determinação direta e pública do governador Wilson Lima para dar “uma resposta dura” após a morte de dois policiais na região.

Na chacina do rio Abacaxis, foram cinco mortos e três desaparecidos. Em função da truculência, a pedido do MPF (Ministério Público Federal), a Justiça determinou que o governo federal garantisse segurança de indígenas e ribeirinhos que relataram ameaças de policiais militares.

A terceira chacina foi registrada a menos de um mês em Tabatinga e como as demais foi minimizada pela SSP e pelo Governo do Amazonas, que negam todas as acusações nos três episódios sem se posicionar publicamente sequer a favor de investigação nos casos.

Antes de Wilson Lima

A matéria da Folha relaciona ainda como histórico do secretário de Segurança de Wilson Lima que, em 2005, “interceptações telefônicas” o colocavam como suspeito de proximidade de um grupo de extermínio. Bonates sempre negou as acusações.

Outro dado negativo do passado do secretário de Segurança Pública do Estado do Amazonas, registrado em 2015, foi citado pela matéria da Folha de São Paulo. Naquele ano, Bonates foi acusado pelo traficante e um dos fundadores da FDN, José Roberto Barbosa, o Zé Roberto da Compensa, de participar da negociação pela paz nos presídios. As conversas foram interceptadas durante a campanha eleitoral em que o então governador José Melo disputou a reeleição.

As gravações foram feitas em meio o inquérito da operação da Polícia Federal “La Muralla”, que investigou a relação de autoridades públicas com facões criminosas. A parte envolvendo o então secretário da Seap, Louismar Bonates, foi encaminhada ao MP-AM.

O jornal Folha de SP também destaca que o MP-AM arquivou a denúncia. O arquivamento ocorreu sob a alegação que faltavam indícios e que nada tinha de comprovado contra o então governador José Melo, considerando que o grampeado na conversa foi outro agente público.

A Folha registrou em sua matéria também que após os ataques ao patrimônio público em Manaus e outras nove cidades do interior, há um mês, os vídeos distribuídos e gravados por criminosos durantes os atos citavam o secretário. A matéria cita o “salve” do Comando Vermelho em afirma que “o CV divulgou um “salve” (comunicado) em que acusa Bonates de usar a estrutura da PM para extorquir droga, ouro e dinheiro de narcotraficantes”.

O secretário Bonates nega todas as acusações.

A Folha só não registrou que Bonates era o chefe da Casa Militar do primeiro mandato de prefeito de Arthur Virgílio, na década de 90, quando houve a retirada violenta dos camelôs do centro da cidade. O tucano levou anos para amenizar a imagem negativa.

Nomeação

Ao ser nomeado por Wilson Lima para o cargo, Bonates foi questionado pelo blog sobre os casos anteriores envolvendo seu nome e respondeu: “Se tivesse alguma coisa, o governador Wilson Lima não teria me nomeado”, disse. Com o tempo e mesmo em meio às polêmicas, o secretário é visto como um dos mais seguros no cargo no governo.

O blog entrou em contato com a assessoria de comunicação da SSP-AM para saber se o secretário iria se posicionar sobre a matéria publicada pela Folha de SP. A resposta foi que tudo que a secretaria e o governo tinham a comentar sobre o assunto foi dito na sexta-feira, dia 10.

No dia da operação, o governo emitiu uma nota informando que os agentes públicos alvos da operação Garimpo Urbano seriam afastados e exonerados das funções.

Mediante uma das piores momentos da SSP, quando o homem de confiança do secretário de segurança é preso, o mesmo governo que ignorou as ações violentas da polícia em operações diz agora que “as condutas ilícitas de servidores não serão toleradas”.

Garimpo Urbano

Segundo o Gaeco, pelo menos 60 quilos de ouro foram roubados usando a estrutura da SSP-AM, incluindo o uso do Guardião, o famoso sistema de grampo de conversas telefônicas de pessoas investigadas, que deveria ser usado em restritos casos e mediante autorização judicial. O uso de equipamento no Estado do Amazonas já foi alvo de muitas suspeitas e mudanças de hábitos de políticos no Amazonas.

O escândalo de que o secretário executivo de Inteligência do Governo do Amazonas é preso e suspeito de integrar uma organização criminosa que monitorava ilegalidades não para coibir e sim para cometer novos ilícitos ocorre em meio a outros graves problemas sem resposta na SSP-AM e do próprio governo.

Em agosto de 2019, os deputados estaduais de oposição Wilker Barreto e Dermilson Chagas, ambos sem partido, afirmaram que estavam sofrendo ameaças e que desconfiavam que o telefone deles estavam grampeados pelo Guardião.

Eles levantaram suspeitas sobre o secretário de Inteligência Samir, preso na sexta-feira. E foram processados pela PGE (Procuradoria Geral do Estado) que os acusavam de calúnia e difamação e exigia que eles, mesmo tendo imunidade parlamentar, comprovassem as denúncias que faziam. A ação gerou mal estar entre governo e ALE-AM. Os parlamentares receberam solidariedade de deputados independentes e governistas.

Ataques de facções criminosas

Há um mês, Manaus e outras nove cidades do interior foram alvo de ataques de facções criminosas que obrigaram alterações na rotina da cidade, com o fechamento do comércio, suspensão da vacinação contra covid e aulas, alteração em horários do Polo Industrial de Manaus e sensação de pânico em toda a cidade.

Ninguém foi morto ou ferido, apenas o patrimônio público incendiado e houve distribuição de vídeos dos criminosos. Muitos com palavras de ofensa e provocação ao secretário Bonates. As cidades alvejadas foram: Manaus, Carauari, Caapiranga, Careiro Castanho, Iranduba, Manacapuru, Parintins, Rio Preto da Eva, Anori e Itapiranga.

Chacina em Tabatinga

Nos dias seguintes aos ataques nas cidades, em Tabatinga, a 1.106 quilômetros de Manaus, ocorreu uma chacina após o assassinato do sargento da PM-AM (Polícia Militar do Amazonas) Michael Flores da Cruz. Sete jovens entre 17 e 27 anos foram brutalmente torturados e mortos, nos dias 12 e 13 de junho, após o policial ser executado com dois tiros na cabeça.

De acordo com o jornal Folha de São Paulo, que ouviu familiares e testemunhas sob sigilo, a onda de violência e medo foi causada por policiais militares em reação ao assassinato do colega de farda. Tudo ficou em silêncio até o jornal Folha de São Paulo publicar três reportagens revelando as histórias.

O assunto foi denunciado também na agência Ojo Público e a ong Human Rights Watch pediu informações ao Governo do Amazonas sobre as medidas adotadas para investigar e punir responsáveis pela morte do sargento da PM-AM Polícia Militar do Amazonas Michael Flores da Cruz e de sete jovens entre 17 e 27 anos no em Tabatinga, a 1.106 quilômetros.