Genocídio, omissão do Estado e silêncio criminoso

José Alcimar de Oliveira*

  1. O genocídio dos povos indígenas das Américas e do Brasil, a partir do final do século XV, atingiu o nível da infâmia das infâmias com a política de genocídio em curso promovida pelo Estado brasileiro contra o povo yanomami.

2. Diante desse crime contra o que chamamos de humanidade impõe-se a pergunta: o que significa ser humano? Diante da tragédia patrocinada pelo Estado brasileiro contra o povo yanomami é possível ser humano sem que incluamos nessa condição ontológica o sentido da compaixão, da empatia, da indignação ética e da recusa à morte organizada como política?

3. Morrer é da nossa condição. Mas é blasfemo morrer como condição de vida imposta pelo Estado. É possível conciliar razão iluminista, autonomia do sujeito e concepção moderna de Estado quando, em pleno século XXI, um Estado é presidido pela necrocracia?

4. Na terceira década do século XXI, com o que se revelou neste janeiro de 2023 do que já vinha ocorrendo de forma calculada nos quatro anos de governo de Jair Messias Bolsonaro, é preciso denunciar para o mundo que Auschwitz é replicada e sangra no coração da Amazônia na vida matada de cada yanomami.

5. Diferentemente dos gases mortais dos campos de concentração nazistas, na Auschwitz da Amazônia o povo yanomami, a começar pelas crianças, morre silenciosamente de fome medida na terra da abundância.

6. O governo de extrema direita de Jair Messias Bolsonaro, como um capataz do capital predatório e neoextrativista, movido a megamineração e devastação florestal, escolheu o povo yanomami como vítima preferencial de seu projeto criminoso para a terra e para os povos originários da Amazônia.

7. Diante dessa tragédia agora escancarada, mas há tempos anunciada, denunciada e criminosamente subnoticiada pelas corporações mediáticas, ou nos declaramos (as e os que não perderam o sentido do humano) todas e todos yanomami ou seremos criminosamente omissos e desumanos.

*José Alcimar de Oliveira, yanomami por opção, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 21 de janeiro do ano da virada de 2023.

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