Infectologista alerta para segunda onda da covid no Amazonas: “mais grave que a primeira”

O infectologista da FMT (Fundação de Medicina Tropical) e professor de Doenças Infecciosas da Ufam (Universidade Federal) do Amazonas, Bernardino Albuquerque, afirma que, o Amazonas, em alguns dias, entrará numa “segunda onda” da covid-19. Para o infectologista com 45 anos de trabalho no Amazonas e 15 na FVS (Fundação de Vigilância Sanitária), a segunda onda será mais grave que a primeira.

Os fatores que levarão a esta situação, para o infectologista, estão sobretudo na volta da circulação de pessoas em Manaus, na falta de estrutura da saúde do Amazonas e no avanço da doença nos municípios do interior do Estado.

“Com essa questão do retorno em determinadas áreas vamos ter uma segunda onda até pior que a primeira, porque essas pessoas vão fazer contato. Daqui a duas semanas vamos ter essa resposta”, declarou Bernardino Albuquerque em entrevista exclusiva ao blog.

Bernardino é professor de Doenças Infecciosas da Ufam, pesquisador da FMT e por 15 anos foi do quadro da FVS (Fundação de Vigilância Sanitária), como diretor-técnico e diretor-presidente.

“Não vamos nos iludir que vai acabar agora, porque não vai”, afirma infectologista sobre a pandemia no AM.

Há uma semana, cerca de 50 mil trabalhadores voltaram às fábricas do Distrito Industrial, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), anunciou para o dia 14 de maio o início da circulação de pessoas no comércio e ALE-AM aprovou a liberação para que templos religiosos voltassem a funcionar. No bastidores, se fala que as medidas foram tomadas diante da pressão de empresários e pastores evangélicos, que acumulam perdas financeiras nos grupos que lideram.

Às medidas que incentivam a circulação de pessoas se soma a não adesão ao isolamento social, sobretudo nos bairros mais populosos e periféricos da cidade, em que vivem as famílias de baixa renda. Para o infectologista, o governo falhou em não criar formas de adesão ao isolamento por parte da população.

“Ninguém conscientiza a população por decreto, é preciso medidas incisivas”, declarou.

Na entrevista, o infectologista também aponta causas que cooperaram para que o Amazonas despontasse, entre os estados brasileiros, em número de morte, na escalada de infectados e no colapso do sistema de saúde. Ele também fala a respeito da desorganização do governo no enfrentamento à pandemia no sistema de saúde e sanitário.

Questionado sobre o que era possível fazer para salvar vidas diante do atual momento no Amazonas, Bernardino respondeu:

“É uma pergunta difícil de responder. No mínimo, rezar né? É uma situação difícil”, disse.

Reabertura do comércio

O anúncio de retomada gradual do comércio foi feito pelo governador Wilson Lima durante o crescente número de mortes e de infectados que produziram cenas de caos nas unidades hospitalares, no cemitério do Tarumã e na casa de pessoas, em Manaus, que não conseguiram nem atendimento médico e nem atenção do serviço funeral antes que os cadáveres começassem a cheirar mal.

As histórias das famílias manauaras chocaram o mundo.

A taxa de incidência média de covid-19 no estado do Amazonas é de 223 casos por 100 mil habitantes, três vezes superior à taxa média nacional que é de 59 casos por 100 mil habitantes, segundo dados divulgados no último Boletim Epidemiológico da FVS.

O instituto britânico Imperial College publicou estudo, na sexta-feira, dia 8, em que revela que o Amazonas aparece disparado como o estado com o mais alto percentual de morte por covid-19 do País. O estado tem índice de 178 mortes para cada 1 milhão de habitantes, enquanto o segundo lugar, o Estado do Ceará, registra 92 mortes para cada 1 milhão de habitantes. O instituto também alertou que, sem medidas de restrição, a crise da pandemia vai agravar no Amazonas.

Leia a entrevista na íntegra:

Rosiene Carvalho (RC): Que fatores levaram ao Amazonas a maior taxa de contaminados e de óbitos do Brasil?

Bernardino Albuquerque: No final do ano passado e início deste, estávamos justamente num surto de doença respiratória aguda. Estava circulando um conjunto de doenças respiratórias. É um período sazonal com maior circulação desses vírus. É o nosso período de chuvas. O nosso inverno amazônico facilita esta contaminação. Ao contrário do Sul e Sudeste, que têm circulação maior no período do inverno que vai começar agora no mês de junho. Aí, aqui, nossas chuvas diminuem.

RC: Isso pode ter influenciado?

Bernardino Albuquerque: Pode. Manaus em si é uma cidade altamente vulnerável. Temos um Distrito Industrial com várias empresas com relação próximas com países do Oriente.

“Acho que o Estado não se preparou como deveria ter se preparado e agilizado o reordenamento e readequação da rede de saúde.”

RC: Era possível prever que estes fatores facilitariam a circulação do vírus?

Bernardino Albuquerque: Com certeza. Fora isso, nosso primeiro registro foi dia 13 de março. E a partir daí se implementou a vigilância e se caracterizou mais casos suspeitos e se começou a diagnosticar mais covid. Havia ainda uma carência no laboratório para testagem dos casos graves. Acho que isso contribuiu também para a não visualização maior do problema. Num primeiro momento, tivemos a doença em bairros com pessoas que têm situação financeira diferenciada: Adrianópolis, Ponta Negra. Posteriormente, foram para vários bairros periféricos, que é o que estamos vivenciando hoje. Acho que o Estado não se preparou como deveria ter se preparado e agilizado o reordenamento e readequação da rede de saúde. Tinham aquela situação que o Delphina ia funcionar como hospital de referência. Mas não se preparou o Delphina para receber esse quantitativo de casos graves. A gente está fazendo, agora, uma readequação do sistema de saúde para atendimento. Mesmo assim, deixando muito a desejar. Isso tem contribuído, sim, para um número de óbitos maior.

“A perspectiva do estado é muito difícil”.

RC: E a disseminação do vírus para o interior do Estado?

Bernardino Albuquerque: Tivemos disseminação para a região metropolitana. Manacapuru teve uma explosão de casos e óbitos e também, logo depois, o município de Itacoatiara, Presidente Figueiredo e hoje temos uma difusão para todo interior. Isso é o mais preocupante. Não temos conexão direta, terrestre ou aérea, com a capital. Aí você tem a situação hoje, a área do Alto Solimões, calha do Rio Negro, calha do Madeira também começando a despontar, o médio Solimões, temos Tefé e Coari com número de casos bem expressivos. Ou seja, a perspectiva do estado é muito difícil.

RC: O senhor quer dizer que Manaus, mesmo que ruim, ainda tinha uma estrutura de saúde, o que não ocorre no interior?

Bernardino Albuquerque: Exatamente. Logo no início estava muito claro. Nos outros municípios não há UTI. Sempre numa perspectiva de trazer doentes graves do interior para Manaus. Numa situação dessas, é uma situação extremamente inoportuna. Não tem estrutura para se fazer isso. A informação que tive é que, na sexta-feira, havia mais de 50 pacientes esperando remoção.  Interior está faltando oxigênio. Eu acho que não houve nenhum planejamento no que diz respeito a esta contribuição na atenção ao interior.

“Quando se lembrou que o aeroporto era a porta de entrada, nós já estávamos numa situação de transmissão continuada e não tínhamos mais como controlar.”

RC: Houve descuido no monitoramento do aeroporto Eduardo Gomes, única porta de entrada para Manaus dos principais centro de contaminação de outros Países e do Brasil?

Bernardino Albuquerque: Com certeza. O covid não veio do interior para capital. Veio de outros estados e de outros Países para Manaus. Então, necessariamente, ele ia chegar por via aérea. Realmente não foi feito este trabalho no aeroporto. Quando se lembrou que o aeroporto era a porta de entrada, nós já estávamos numa situação de transmissão continuada e não tínhamos mais como controlar.

RC: O primeiro caso de infecção confirmado, que se teve notícia, os familiares tiveram contatos com pessoas da escola e trabalho. Isso é simbólico? Faltou orientação e monitoramento destes primeiros casos a respeito da necessidade de se isolar de forma eficiente casos suspeitos e confirmados para tentar diminuir o avanço da doença?

Bernardino Albuquerque: Isolamento e lockdown ou qualquer outra estratégia que se utilize para evitar a coisa do contato e da infecção, parte necessariamente da conscientização da população. A gente não faz isso só por decreto. Falta, por parte dos nossos gestores, um posicionamento mais incisivo no que diz respeito a explicar porque nós vamos fazer isso. Este fator também teve sua parcela de contribuição.

RC: O fluxo e a forma de condução do sistema de saúde para a pandemia também é um fato que ajudou a elevar os números de infectados e de agravamento?

Bernardino Albuquerque: Não tenha dúvida. As nossas unidades de saúde têm funcionado como locais de alta transmissão do covid-19. Até porque não houve preparo e conscientização dos nossos dirigentes das unidades de saúde no que se diz respeito a estabelecer fluxo, principalmente a questão dos EPIs. Eu questionei essa questão de colocar o Delphina como referência. Eu disse que não ia ficar só na Zona Norte, vamos ter a Zona Leste, Oeste, Sul da capital. Se não fizermos referência desde o início nestas zonas, eu superloto um hospital único como referência. Nem todos têm recursos para deslocar da Zona Leste para o Delphina. Isso deveria ser considerado dentro de uma proposição de reordenamento das unidades de saúde e isso não foi feito como deveria.

RC: A gestão da secretaria não é formada por profissionais com know how na saúde e em Amazonas. Não há também um comitê, sequer consultivo, que ouça as pessoas que têm este conteúdo, como o senhor, por exemplo. Isso é uma falha: não conseguir perceber que o capital da ciência e do conhecimento de saúde do estado não está sendo usado, neste momento para salvar vidas?

Bernardino Albuquerque: Isso é uma coisa que aprendi em toda a minha vida profissional que já tem 45 anos. Já enfrentei três pandemias, acho que duas palavras são importantes: prudência e humildade. Possivelmente, primeiro reconhecer, chamar as pessoas para conversar. Todo mundo está para contribuir. Tem que tomar atitudes que tenham respaldo para serem tomadas. Não é fazer da cabeça. Tem que ouvir pessoas com experiência maior. Analisar cada cenário para que se possa tomar medidas importantes e mais efetivas, em determinada cidade e estado.

 

“Não vamos nos iludir que vai acabar agora, porque não vai”

RC: Um estudo divulgado pela Imperial College, de Londres, na semana passada, diz que apesar desses números alto de mortes estamos longe da imunização de rebanho, do fim de tudo que envolve a pandemia e que a situação pode piorar. Qual sua opinião?

Bernardino Albuquerque: A partir de 70% de contaminação (da população) é que você começa a ter uma taxa de reprodução menor que 1. A de hoje é de 2,8. A taxa de reprodução é extremamente alta. Não vamos nos iludir que vai acabar agora, porque não vai. A não ser que a população atenda a algumas recomendações como, por exemplo, o isolamento social. Não vai deixar de existir o risco de contaminação, mas ele vai ser retardado. Teremos menor número de pessoas adoecendo, menor número de casos graves e menor número de pessoas morrendo. Ou seja, tenho um tempo maior para que realmente a gente possa se preparar melhor. A estratégia é o isolamento social e lockdown, mais difícil de ser cumprido.

“Com essa questão do retorno em determinadas áreas vamos ter uma segunda onda até pior que a primeira, porque essas pessoas vão fazer contato. Daqui a duas semanas vamos ter essa resposta.”

RC: Além de difícil de ser cumprido, não me parece ser a pauta do Executivo, do Legislativo e nem do Judiciário sobre a necessidade de isolamento. Seja por decisão ou pronunciamento, estes poderes sinalizam que são favoráveis a um incentivo ou medidas que coloquem as pessoas a voltar a circular. Isso tudo  num momento em que a doença avança para o interior e Manaus não libera leito. O que podemos esperar disso? O que a gente vai ver é pior do que a gente já viu até agora?

Bernardino Albuquerque: Realmente é uma pergunta difícil de responder. No mínimo, rezar né? É uma situação difícil. Até porque sabemos que com essa questão do retorno em determinadas áreas vamos ter uma segunda onda até pior que a primeira, porque essas pessoas vão fazer contato. Daqui a duas semanas vamos ter essa resposta. Aí, vamos ter o impacto dessa liberação. Aí volta tudo de novo. Temos exemplo de países que estão retornando. China já começou a ter caso novamente.

RC: O senhor quer acrescentar algo mais sobre a pandemia?

Bernardino Albuquerque: Acho que já falei demais. Daqui a pouco, vou preso.  Tem momento que temos que adotar posição crítica, que unir esforços, deixar orgulho de lado e trabalhar em conjunto. Temos que pensar nisso.

Foto: Divulgação via BandNews Difusora