“Não podemos abrir mão de reconstruir o significado dos símbolos nacionais”, afirma sociólogo

Foto: Divulgação sociólogo Dayvid Spencer.

O sociólogo e professor da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), Davyd Spencer, declarou que os símbolos nacionais se tornaram objeto de um disputa política e ideológica, que a extrema direita capitaliza e instrumentaliza de forma perigosa.

A bandeira, a blusa da seleção brasileira, as cores verde e amarela e o uso do preto em protesto estão permeando as ideologias e a política nacional.

“Há uma luta política, ideológica, profunda e extensa, que atravessou instituições e famílias, promove rupturas nas relações sociais e familiares e colocou os símbolos nacionais em disputa. A extrema direita tem mobilização e capitalizou politicamente a identidade em torno dos símbolos e usa isso para apontar, dentro da sua perspectiva, o que é ser brasileiro, defender o País e a soberania”, declarou o sociólogo.

Para o cientista social, há um problema porque esse discurso de nacionalismo se associa ao autoritarismo, a medidas antidemocráticas, conservadoras e reacionárias, que muitas vezes se relacionam com o oposto do discurso. Davyd Spencer afirma que, neste contexto, os símbolos nacionais são usados para uma política de fragilização da identidade, cultura e patrimônio nacionais.

“Se usa (os símbolos nacionais) de uma maneira muito deturpada, pouco reflexiva, pouco crítica por parte daqueles que compõem o quadro do movimento de extrema direita. O nacionalismo toma rumos que vão na contramão da história. Temos que fazer essa crítica e formar uma compreensão histórica da ideia de identidade nacional. Não podemos embarcar numa falácia, num engodo usado e instrumentalizado pela extrema direita”, avaliou.

Nacionalismo deturpado invalida a identidade nacional

O cientista social afirma que o nacionalismo deturpado leva a um caminho de negação da identidade nacional e cita uma série de ações e declarações do presidente Bolsonaro que, para ele, afrontam o próprio discurso.

Entre os exemplos, o sociólogo cita as críticas negativas ao Carnaval, a maior festa popular do País, em fevereiro; o discurso contrário ao respeito aos povos originários e ao meio ambiente, o ataque ao cinema nacional com a censura e troca de comando na Ancine num momento em que as produções brasileiras são premiadas e tem reconhecimento internacional e o desrespeito aos artistas que reforçam a cultura brasileira fora do País, entre outros.

“O que acontece no Brasil hoje, por parte de uma boa parcela da sociedade brasileira, é ausência de uma compreensão histórica, reflexiva e crítica da identidade nacional. É uma tentativa de produzir uma sociedade homogênea, sem diferenças, sem oposição política, sem diversidade. A lógica é que o que é contrário precisa ser perseguido e eliminado. Então, temos um presidente que se utiliza dos nossos símbolos para defender uma ideia quando, na verdade, ele se curva e bate continência
à bandeira norte-americana”, disse.

Davyd Spencer explica que o nacionalismo exacerbado estimula a racionalidade binária e se contrapõe a uma diversidade, característica da sociedade e cultura brasileira. Além de separar e não ajudar a reconstruir o País, segundo o sociólogo.

“O nacionalismo, nesses termos de racionalidade binária, onde só há dois lados, o nosso e o deles, se contrapõe a uma diversidade política e cultural que induz a práticas e métodos de guerra. Essa racionalidade não ajuda a reconstruir o Brasil a dar novos sentidos ao Brasil de hoje. É um nacionalismo beligerante. Separa, divide”, declarou.

“Somos assombrados pela história”

O sociólogo avalia que este é um momento histórico e, para ele, o pior cenário desde o fim do regime militar com uma direção política que aponta para descivilização e retrocessos na construção democrática, nos direitos humanos, na cidadania e nos princípios republicanos.

“É o pior cenário político, econômico, social e cultural desde o regime militar. Vivemos isso hoje, porque não fizemos um acerto de contas com a nossa história. Não punimos os torturadores e somos assombrados pela história. Temos hoje um presidente que declaradamente faz apologia à morte como técnica e método de controle social e política de dominação”, declarou.

Para o sociólogo, não é correto aderir a esta proposta de deturpação dos símbolos nacionais e abrir mão dos mesmos.

“Devemos reconstruir simbolicamente a ideia da nacionalidade. No sentido de uma brasilidade e não de agentes da deturpação e alienação da identidade nacional. Temos que descolonizar a mente social e política dos brasileiros”, disse.

“Estamos perdendo na micropolítica”

Davyd defende que as pessoas conversem e dialoguem sobre o nacionalismo, soberania e o processo histórico do País.

“Temos que conversar com as pessoas, dialogar sobre nacionalidade, sobre soberania, sobre as nossas cores. Construir um novo sentido para o Brasil. Qual sentido queremos para o Brasil de hoje? Temos que descer ao nível da micropolítica, nas escolas, nas ruas, no trabalho, nas manifestações públicas”, disse.

Para o professor da Ufam, além da exigência da participação na macropolítica (nas instituições, cargos eletivos, partidos, etc), as pessoas precisam participar da micropolítica.

” A macropolítica é fundamental para reconstruir os sentidos do Brasil, da sua história, da nacionalidade. Mas a micropolítica precisa ser feita. Precisamos traçar estratégias num campo que defende a democracia, os direitos humanos, a cidadania, as liberdades políticas e civis. Precisamos atuar na macropolítica, é importante, mas temos que lutar também na micropolítica. Aqui estamos perdendo”, disse

Foto: Divulgação – redes sociais Davyd Spencer

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