“O mundo não tem razão”

Sophia Maria de Carvalho Breves*

Olho para minha janela me acordando às 5h50 da manhã bem na hora que os moradores pássaros, daqui de casa, acordam. Olho para a janela e percebo cantos de aves sobrevoando meu condomínio. Ainda não recomeçou a minha aula. Então, pego minha câmera e vou caminhando pelo condomínio.

Nesse horário, não há ninguém, por isso adoro. E nem tomo café. Passeando me vejo feliz. Tiro fotos de vários pássaros e minha mente vai a cantarolar duas músicas. Uma delas, se chama Vilarejo. É assim:

“Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraíso se mudou para lá”

Outra música que vem em minha mente é:

“Canta, canta passarinho, canta, canta miudinho
Na palma da minha mão
Quero ver você voando, quero ouvir você cantando
Quero paz no coração”

Me sinto privilegiada por ter um lugar tão lindo. Sinto muita paz no coração. Enquanto vou andando, ouço “bem-te-vi”, “bem-te-vi”, “bem-te-vi”…

Espero que todos um dia vejam esses animais, essa natureza com os olhos que eu vejo.

Mas, ao mesmo tempo, eu me sinto triste quando observo pássaros morando no meu ar-condicionado. Porque, se eles moram aqui, é por alguma causa. Eu penso que antes de construírem esse prédio claramente derrubaram várias árvores. Uma delas era a casinha desses passarinhos.

Houve um tempo em que um passarinho invadia a minha casa e comia as bananas na cozinha. Minha mãe começou a mandar mensagens a amigos para saber o que fazer em relação a isso. Porque nós não podíamos abrir a varanda que ele entrava. Um desses amigos falou para pôr veneno numa fruta, brincando: “Convide ele a desencarnar”.

Claro que não fizemos isso! Na verdade, fizemos o contrário. Botamos frutas na varanda para que mais pássaros visitassem nossa casa, como corruíras, bem-te-vis, suiriris e os primeiros moradores, sanhaçu do coqueiro.

Confesso que eu nem ligava muito para isso. Mas de 2020 para cá eu consegui observar mais essa beleza natural que tenho em casa. Um dia, nós fomos para o Musa e então subimos aquela torre para admirar a vista. Observando o local, um tio falou: “Em 2040, isso será só pasto e soja”. Fiquei assustada com o que ele falou e pensativa com esse assunto.

Então, cheguei a esta conclusão. Não quero que o final desse texto seja assim, mas se nós não começarmos a mudar o jeito que vemos e tratamos a natureza, o final será assim.

Me encontro em 2040. Olho para minha janela e percebo caos e destruição. Não me vejo em um vilarejo. Não consigo sentir o vento arejando. Na varanda, não dá mais para descansar. E cadê o belo horizonte? Não existe mais.

Não dá mais para acalmar o coração. Porque o mundo não tem razão. Pois onde estão os heróis? E os passarinhos? Não cantam mais.

Sophia Maria de Carvalho Breves, 12 anos, estudante do 8º ano do Ensino Fundamental.  Redação feita para a disciplina de Português da Escola Josephina de Mello, no mês de abril de 2021, durante a suspensão das aulas presenciais em função da pandemia.

Os vizinhos passarinhos de Sophia (Mais fotos de pássaros de Manaus no instagram sophiacarvalhoam )

Página do caderono de redação onde Sophia escreveu o texto acima, roubado pela mãe, a jornalista responsável pelo blog:

Um comentário
  1. Maravilhado com o seu texto, Sophia. Você transforma natureza em escrita poética. As aves do céu têm em você uma guardiã com elevada sensibilidade estética. Sua escrita é habitada pela gratuidade e leveza do belo e livre voejar dos pássaros. É preciso pensar com asas para compreender a sintonia refinada que há entre você e a perfeição que se oculta nesses seres em forma de canto alado. Ao escrever você manifesta a verdade de que alis grave nil. Nada é pesado a quem tem asas.

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