O reverso do universalismo e o fascismo cognitivo: notas à margem da filosofia

José Alcimar de Oliveira*

Quando está na ordem do dia dar um passo à frente, pode-se, entre outras coisas, dar um maior para trás. Daí essa reativação de Paulo (apóstolo). Não sou o primeiro a arriscar a comparação que faz dele um Lênin, do qual o Cristo teria sido o Marx equívoco (Alain Badiou).

                01. Num ensaio luminoso e irredento, intitulado Rua de mão única, Walter Benjamin, que tem lugar hagiográfico especial entre os santos de minha devoção profana, me orientou em forma de advertência cognitiva que “a fala conquista o pensamento, mas a escrita o domina”.

Seguramente não estava entre as intuições visionárias de Benjamin, que escapou ao século XX em 1940, aos 48 anos, que no século XXI a escrita haveria de ser ocupada pela estrutura da fala, como ocorre nos espaços idiotizantes das redes sociais. Hoje, no espaço (in)comunicacional dos dispositivos mediáticos, escreve-se como se fala. Uma fala rasa e falaciosa, calcada no que o velho Adorno chama de semiformação.

Ao contrário da sentença heideggeriana, de que a linguagem é a morada do ser, a fala já não oferece nenhum abrigo ontológico ao ser. A fala, cada vez mais, é o domínio do reativo e, como afirma Benjamin, “conquista (e interdita) o pensamento”. A linguagem, pelo menos, ainda guarda um fundo reflexivo, sob ameaça da fala.

                02. Embora não tenham deixado marcas escritas de suas sábias enunciações, Sócrates e Jesus, pelo que se registrou deles nos textos que chegaram até nós, é possível identificar no conteúdo de suas falas um estatuto não comensurável ao registro dominante da escrita e das imagens que infestam as redes sociais no Brasil do século XXI.  

As falas de Sócrates e Jesus tinham a medida ontológica de uma sabedoria investigativa. Por isso permanecem. Possuem a marca de uma fala transepocal. Sobreviverá amanhã algo do que hoje domina as redes sociais? É tudo flatus vocis. A expressão vem das disputas escolásticas sobre a questão dos universais no Medievo.  Quis, mas não consegui, evitar o termo flatulência verbal.

E o que dirá Walter Benjamin se o pensamento capitular e cair dominado pela escrita rápida, reativa e heteronomizada que move as redes sociais? No primeiro período do Curso de Filosofia, na Universidade Federal do Amazonas, aprendi que a escrita favoreceu o surgimento da Filosofia. O nível da escrita predominante nas redes sociais depõe contra o pensamento filosófico.

                03. São Paulo Apóstolo, como nenhum outro dentre os narradores do Cristo da Fé e do Jesus da História, identificou o que havia de universalismo na fala de Jesus de Nazaré. Não fosse a escritura paulina o Evangelho do Nazareno não teria ultrapassado as fronteiras da pequena Palestina.

Com as Cartas de São Paulo o cristianismo em pouco tempo adquiriu o estatuto de uma religião culta. Ainda que paradoxal, quem atribui a São Paulo a fundação do universalismo é o filósofo marxista francês, nascido em Marrocos, Alain Badiou, que se declara “hereditariamente ateu”. 

Dele, a Boitempo, a mais conceituada editora brasileira de livros marxianos e marxistas, publicou, em 2009, o livro São Paulo: a fundação do universalismo. A despeito das reservas do autor, é um texto com força exegética, fundamentado em investigação escriturada sobre a cultura grega, judaica e romana do cristianismo antigo. Não é, portanto, um texto datado, menos ainda um escrito destinado a leitores movidos pela cultura do espetáculo.

                04. Independentemente do que é positivado pela chamada razão revelada e aceita pela dogmática cristã, para a qual em Jesus convivem verdadeiramente as naturezas divina e humana, é impossível não identificar uma força filosófica e universal na fala do Nazareno.

Edgar Morin, filósofo contemporâneo que completou 100 anos no recente 08 de julho de 2021, inclui Jesus entre seus filósofos de referência. Um judeu, filho de uma família que morava num pequeno e mal afamado povoado de nome Nazaré, que enfrentou duas ordens dominantes e opressoras: o Império Romano e o Judaísmo dos Doutores da Lei. Jesus tornou-se, em pouco tempo, o mais universal dissidente do judaísmo.

Impôs ao Antigo um Novo Testamento, cujo núcleo reside nos Evangelhos (Boa Notícia) e nas Cartas Paulinas (não menos Boas Notícias). Ninguém como São Paulo soube objetivar, em suas Cartas, a força do universalismo da fala de Jesus de Nazaré.

                05. Segundo Badiou, “o gesto inédito de Paulo é subtrair a verdade da dominação comunitária, seja de um povo, de uma cidade, de um império, de um território ou de uma classe social. O que é verdadeiro (ou justo, o que nesse caso tem o mesmo significado) não se deixa remeter a nenhum outro conjunto objetivo, nem do ponto de vista de sua causa, nem do ponto de vista de seu destino”.

As palavras de Paulo dirigidas aos habitantes da Galácia, sobretudo se levarmos em conta a estrutura hierárquica da sociedade antiga, impermeável a mudanças e ciosa dos privilégios garantidos pela forma concentrada do exercício do poder, nos dão a medida do universalismo que Badiou identifica no chamado Apóstolo das Nações: “Não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, não há homem nem mulher; pois todos vós sois um só em Cristo Jesus” (Gl 3,28).  Conforme São Paulo, em Deus não pode haver discriminação de pessoas (cfr. Rm 2,11).

                06. O Deus pregado por Jesus de Nazaré é o Deus do Povo, que se faz Povo em meio ao Povo de Deus, não o Deus instrumentalizado pelo poder, que se afirma como Deus acima de todos. A palavra Emanuel, transliterada do hebraico Immanuel, e de forma profética referida a Jesus de Nazaré, significa Deus conosco, Deus no meio de nós, não Deus acima de nós.

Não é gratuita a afirmação de Badiou de que Cristo foi o Marx de Paulo e Paulo o Lênin de Cristo. Paulo Apóstolo, nas palavras de Badiou, “provocou uma revolução cultural da qual ainda dependemos”. Há implícito um devir materialista, histórico e dialético, que vai de Badiou a Lênin, de Lênin a Marx, de Marx a Hegel, de Hegel a Paulo e de Paulo a Jesus.

E esse devir passa pelo movimento da razão que educa e organiza o povo como sujeito coletivo de uma nova ordem política. É um equívoco reduzir o sujeito histórico Jesus às formas positivadas do cristianismo ao longo da história.

                07. O texto programático desta nova ordem política, que necessariamente passa pela relação entre Deus e o ser social, notadamente uma relação que diviniza o ser social e humaniza a figura materna e paterna de Deus, encontramos em Lucas 4,16-19:

“Ele foi a Nazaré, onde fora criado, e, segundo seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para fazer a leitura (de seu programa). Foi-lhe entregue o livro do profeta Isaías; desenrolou-o e começou a ler: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos (políticos, inclusive) e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor’”.

Ao concluir a leitura desse texto, Jesus foi expulso da sinagoga e de sua pequena Nazaré e levado pelos milicianos religiosos da época, aos gritos de comunista e esquerdista, a uma colina com a intenção de precipitá-lo. “Ele, porém, passando pelo meio deles, prosseguia seu caminho…” (Lc 4,30). Assim foi o início de seu ministério na Galileia, sob a zona escura do fascismo cognitivo e sob a explícita ameaça de reversão ao seu programa universalista.

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 11 dias do mês de julho do ano do morticínio de 2021.

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