Organização internacional pede informações sobre chacina em Tabatinga ao Governo do AM

A organização internacional de direitos humanos Human Rights Watch pediu informações ao Governo do Amazonas sobre as medidas adotadas para investigar e punir responsáveis pela morte do sargento da PM-AM Polícia Militar do Amazonas Michael Flores da Cruz e de sete jovens entre 17 e 27 anos no em Tabatinga, a 1.106 quilômetros.

A organização internacional, que investiga e denuncia violações aos direitos humanos, “insta” o Governo do Amazonas a atuar com “urgência” para investigar e elucidar os fatos. Além disso, cobra o estado a respeito das medidas para garantir a segurança das famílias das vítimas em Tabatinga para que possam “com segurança” auxiliar as autoridades a esclarecer os assassinatos dos jovens e do policial.

A solicitação de informações da Human Rights Watch foi encaminhada ao governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), com cópia ao secretário de Estado de Segurança Pública, coronel Louismar Bonates.

“Instamos, Vossa Excelência, que urgentemente tome todas as medidas necessárias para promover o esclarecimento dos fatos, a identificação e a responsabilização dos envolvidos nos crimes em questão”, afirma trecho do documentos encaminhado pela organização ao Governo do Amazonas.

Veja o documento:

Assassinato de PM e chacina em Tabatinga

Nos dias 12 e 13 de junho, o município de Tabatinga viveu uma onda de violência e barbárie seguida por silêncio e medo. As cenas de terror começaram com o assassinato de um sargento da PM com dois tiros na cabeça e, nas horas seguintes, de invasões de casas, torturas e mortes com corpos com sinais de extrema violência. Os casos não ganharam destaque na mídia do Amazonas até o jornal Folha de São Paulo publicar três reportagens em destaque sobre os assassinatos.

Segundo a matéria da Folha, os sete jovens foram mortos por policiais que “invadiram e vandalizaram casas, ameaçaram familiares dos mortos, adulteraram atestado de óbito e impuseram a lei do silêncio” na cidade. A reportagem informa que ouviu familiares das vítimas, testemunhas, moradores e autoridades da tríplice fronteira (Brasil/Colômbia/Peru) e que a ação passou os limites da fronteira porque no bairro chamado Porvenir, da cidade colombiana de Leticia, policiais “apontaram armas contra cidadãos colombianos”. Segundo a Folha de São Paulo, a Polícia Nacional da Colômbia investiga o caso.

As testemunhas e familiares ouvidos pela reportagem do jornal relatam que algumas vítimas foram mortas sem apresentar resistência. Três corpos foram encontrados no lixão da cidade, um com sinais de perfuração no ânus. Outro degolado com apenas uma pele ligando a cabeça ao corpo.

Ainda de acordo com a reportagem do jornal Folha de São Paulo, seis dos sete mortos tinham entre 17 e 27 anos. Eram negros ou pardos (incluindo descendentes de indígenas). A matéria da Folha indica que as testemunhas e familiares aceitaram falar fora de Tabatinga por temerem virar alvo de novos ataques de violência.

Representações de órgão da segurança pública do Amazonas se calaram ou se negaram a prestar informações sobre o caso e até mesmo de dados públicos básicos sobre a cidade, como o número de assassinatos registrados este ano na cidade. Segundo a Folha de São Paulo, esta informação específica teve de ser fornecida por autoridades da Colômbia.

Os órgãos que deveriam prestar apoio aos familiares das vítimas, segurança e exigir investigação urgente e rigorosa sobre a onda de violência na cidade também silenciaram e só se manifestaram com notas – aquém da gravidade dos fatos e de suas responsabilidades – após a publicação das matérias na Folha de São Paulo. É o caso do Ministério Público do Estado do Amazonas e da Defensoria Pública do Estado do Amazonas.

Nesta quinta-feira, dia 1, a Folha de São Paulo publicou uma matéria a delegada da Polícia Civil de Tabatinga (AM), Mary Anne Trovão, afirmou não ter participado do exame do corpo de Antonio Rengifo Vargas, cujo documento foi entregue à reportagem da Folha pelo pai do morto. A informação da delegada impõe interpretação que o documento foi fraudado.

O empresário Antônio Rengifo Baldino, que também tem nacionalidade colombiana, foi o único familiar que aceitou falar com a reportagem do jornal. Antes da manifestação da delegada, em resposta ao questionamento enviado pela reportagem à assessoria de comunicação da SSP-AM, o pai de Antônio sustentou que o documento do exame do corpo do filho foi fraudado porque omitiu os sinais de tortura e porque nomes que constavam no documento não estavam presentes na hora.

O pai disse que procurou o consulado da Colômbia, após sofrer ameaças. O corpo dele foi um dos três que encontrados no lixão da cidade com sinais de tortura.

A nota emitida pela SSP-AM não se manifestar sobre investigação das denúncias apresentadas pelo jornal e, ao contrário do que relatam familiares e testemunhas, diz que as mortes violentas dos corpos do lixão não tem ligação com a reação da polícia após a morte do sargento. O comandante da PM em Tabatinga confirmou ao jornal que quatro pessoas foram mortas pela polícia na ação após a execução do sargento. Ele, no entanto, afirma que todas ocorreram em função de “resistência”.

FOTOS A SEGUIR COM IMAGENS FORTES E DE VIOLÊNCIA * :

*As informações sobre as vítimas e a condição dos corpos são da Folha de São Paulo. Fotos que circularam nos grupos de WhatsApp na cidade e fornecida por familiares e testemunhas.

Antônio Reginfo Vargas, 20. Corpo com sinais de tortura foi um dos três encontrados no lixão da cidade. Sonho era se tornar policial
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