Os dilemas, a liberdade e a credibilidade da imprensa no Amazonas

As crises sanitária e econômica provocadas pela pandemia da Covid-19 e os extremismos políticos entre esquerda e direita por todo o mundo fizeram aumentar os índices de ataques ao jornalismo e aos profissionais da imprensa Dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) apontam para 400 assassinatos de jornalistas, entre 2016 e 2020.

De acordo com o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), o ano de 2020 foi o mais violento desde o começo da década de 1990 quando iniciou a série histórica.

Ainda segundo a Fenaj, o presidente Jair Bolsonaro (PL), mais uma vez, foi o principal agressor dos ataques diretos e indiretos à imprensa, pelo simbolismo da função que incetiva seguidores. Bolsonaro respondeu sozinho por 175 dos 428 registros de violência no relatório divulgado em janeiro de 2021. No diagnóstico da federação entre os ataques à imprensa, há uma novidade: a descredibilização da imprensa, também liderada pelo presidente da República.

O relatório da Fenaj deste ano traz entre os ataques ao jornalismo episódio ocorrido em Manaus, quando jornalistas foram agredidos numa coletiva ao tentar fazer perguntas ao vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida Filho (PSDB).

O ataque aos profissionais que viabilizam o direito das pessoas de acesso à informação entra num grau tão preocupante que a jornalista das Filipinas Maria Ressa e o jornalista da Rússia Dmitri Muratov foram os escolhidos para receber o Prêmio Nobel da Paz. O comitê, que definiu os nomes, apontou ser este um aceno à defesa das liberdades de imprensa e de expressão, “pré-requisitos para sociedades democráticas e para a paz duradoura”.

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), no congresso deste ano, homenageou duas jornalistas com atuação na Amazônia, Kátia Brasil e Elaíze Farias, sinalizando uma forma de reconhecimento ao diferencial do conteúdo da Agência Amazônia Real por dar voz às comunidades e pessoas desta região com pouco espaço na midia nacional e local.

É sobre este contexto que o episódio do EXCLUSIVA desta semana ouve o Doutor com pós-doutorado em Ciência da Comunicação, o jornalista e cientista social Wilson Nogueira e a doutora em comunicação social e professora da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) Ivânia Vieira.

Ouça o podcast do programa gravado ao vivo nesta segunda-feira, dia 13, pela rádio BandNews Difusora (93.7). Ou acompanhe o vídeo da live do programa no final desta publicação:

Texto: Thaís Gama e Rosiene Carvalho. Produção: Maurício Max, Arthur Coelho, Clara Toledo, Rafael Campos, Rosiene Carvalho. Revisão geral: Rafael Campos, Thaís Gama e Rosiene Carvalho.

Destaques: Wilson Nogueira

“A atividade jornalísitica comercial é uma atividade de dualidade. Ela traz esse dilema aí de tentar dosar o patrocinador, o balcão e a informação que está produzindo. Quanto à posição do jornalista, ser jornalista é uma briga diária. É um exercício e uma luta diária para tentar fazer o melhor dentro daquilo que é complicado de fazer. Atuar entre os interesses de quem está querendo faturar, que está dependendo de dinheiro para manter a empresa e entre o interesse público, a produção de notícias críveis.”

“O jornalista não se iluda: sempre vai encontrar essa batalha pela frente quem faz o bom jornalismo. A pessoa que procura fazer o bom jornalismo é uma pessoa praticamente frustrada quase todos os dias. Porque vive nessa luta diáriade de tentar fazer o melhor e sem ter o meio de produção”.

“Na realidade, não vendemos notícias. Nós vendemos credibilidade. Um jornal se manténm a partir do nível de credibilidade que ele tem. Só que o investimento na credibilidade é muito alto e quase utópico por causa dos interesses que existem em cada setor da sociedade, em cada setor da economia. Se formos prestar atenção de como funciona os grandes conglomerados no mundo, eles sempre estarão atrelados a determinados interesses econômicos. É a agência que está ligada ao comércio de petróleo, agência ligada às novas teconologias. É a agência pautada em determinados assuntos em nível internacional, em nível local, em nivel regional. O jornalista não pode ser ingênuo nesse jogo de achar que está fazendo tudo e que pode fazer tudo. Temos que estar conscientes da nossa responsabilidade como profissionais e, ao mesmo tempo, tentar administrar nesse jogo todo aquilo que pode ser de melhor interesse para o público.”

Destaques: Ivânia Vieira

“Um dos desafios dentro da profissão é primeiro encarar que temos um desafio. Chegarmos a esta condição de consciência crítica que nós temos um desafio. Tentar compreender a complexidade deste desafio e ver que tipo de alinaça podemos realizar para tentar enfrentar da forma mais lúcida, sensata e amorosa.”

“Quando olhamos a quantidade de blogs, fica uma pergunta: nós temos uma quantidade de blogs, portais. é possível que nós tenhamos mais informações e as pessoas estejam sendo melhor informadas para tomar suas decisões? Pesquisas de TCC e mais ampliadas demonstram que não tem sido assim. Ampliou-se o espaço de manifestação e ampliou-se o espaço de coerção. Quem patrocina esses blogs e sites? Que tipo de monitoria ou de auditoria está sendo feita no material produzido pelos sites e blogs que têm a etiqueta “jornalismo” e “informação jornalística”?”

“A partir daí, começam os arranjos de poder que tem a ver com a repartição da verba pública da área da comunicação. Para uns, um determinado quinhão mais volumoso, para outros um quinhão mais acanhado e para outros nada, a não ser que se submetam. Precisamos falar e denunciar esse tipo de coisa. A verba pública para comunicação está amarrada a princípios legais e deve se prestar a uma informação pública.”

Qual o maior desafio para os jornalistas e para o jornalismo no Amazonas?

Kátia Brasil, fundadora da agência de notícias Amazônia Real: “O maior desafio para os jornalistas do Amazonas hoje é ter garantida sua liberdade de expressão e imprensa. Temos uma imprensa financiada por governos com muito interesse sobre o que escrevem os jornalistas. É preciso que esse jornalista tenha segurança na redação, liberdade para investigar, apurar e essa investigação ocorra sem interferência dos poderes. Uma outra questõa importante é a produção de releases. Muitos deixam de publicar suas reportagens para publicar releases, que são informações oficiais e não informações apuradas por jornalistas. Isso não é democratizar informação. Aliás, isso é um perigo para a nossa sociedade como um todo”.

Cláudio Barbosa, jornalista responsável pelo Portal Único: “Creio que o grande desafio do jornalismo profissional é fazer jornalismo com responsabilidade. É muito fácil você construir audiências inventando histórias, colocando coisas fantásticas que não existem, caindo num circo de horrores, apresentando imagens terríveis e que nada acrescentam. Difícil é construir audiência com responsabilidade, seja na mídia digital, como é o caso do nosso Portal Único, seja no caso de vocês e de outros colegas, em rádio, seja de colegas que estão em outros tipos de veículos. Esse é um desafio que não é só para Manaus. É um desafio da mídia profissional no Brasil inteiro e, de certa forma, até no mundo. Cada vez mais o jornalista tem que ser responsável, apurar a informação correta e apresentá-la da melhor forma possível. Não é um trabalho fácil. É um trabalho desgastante que exige persistência e um trabalho diário na checagem da informação para que a informação que verdadeiramente representa a realidade seja levada ao público.”

Aruana Brianezi, editora-chefe do jornal A Crítica: “O trabalho para construir ou reconstruir a confirança na profissão jornalismo é o primeiro ponto que deveria ser colocado como desafio. É um grande desafio construir as bases para esta confiança. Isso passa muito por fazer as pessoas e a sociedade entenderem qual o papel do jornalismo. Não é a toa que dois jornalistas acabaram de ganhar o prêmio Nobel da Paz. Isso é muito simbólico e significativo, neste momento, que o mundo precisa se voltar para estes valores que é a busca da verdade e que o jornalismo está ai de mãos dadas com a democracia. Falando específico sobre o Amazonas: hoje temos o jornalismo profissional e o não profissional. Tem um mercado em que proliferam sites sem nome, sem endereço, que você não sabe quem faz, de onde vem aquele conteúdo. Isso é um desafio muito grande. Isso é fruto, infelizmente, de uma sociedade que se tem hoje em que as pessoas acreditam que quem se vacinar vai virar jacaré. Então, quem acredita numa coisa dessas provavelmente também acredita que qualquer coisa que está na internet é jornalismo. Um ponto, se a gente pudesse apontar, em nível local a ser trabalhado é realmente criar um projeto para tentar separar o joio do trigo, quem faz jornalismo profissional e quem não faz. Mas para isso a gente precisa de uma sociedade apta a diferenciar. Hoje, ainda falta educação. Se o jornalismo puder ajudar a educar as pessoas para o mundo digital, a diferenciar a notícia verdadeira da falsa estaria prestando um serviço muito importante.”

Leila Ronize, coordenadora do curso de Jornalismo da Fametro: “Há duas dificuldades para fazer jornalismo no Amlazonas. A primeira é o desconhecimento que o jornalista tem em relação ao Amazonas e à Amazônia. Muitas vezes porque falta interesse de buscar em órgãos oficiais ou na própria internet essa informação. Ou até mesmo nas próprias disciplinas, pelo menos o nosso curso tem disciplinas voltadas para falar desta realidade. A segunda, que acho mais complicada ainda, é cultural da política desenvolvida em alguns municípios, onde existe uma idolatria pelos políticos Isso coloca muitos obstáculos quando se quer trabalhar com jornalismo investigativo.

Rafael Hoff, coordeanador do curso de Jornalismo da Ufam: “O primeiro desafio de ordem técnica e tecnológica tem a ver com ensino e aprendizagem do jornalismo. Muitos jovens afoitos por colocarem a mão na massa e entrarem no mercado de trabalho e trabalharem procuram na sala de aula os domínios de ferramentas digitais para criação e publicação de conteúdos. Só que, às vezes, eles esquecem que jornalismo é uma contação de história de pessoas para pessoas. Há pouca criação efetiva e muita cópia de material circulando por aí nos espaços jornalísticos. E o segundo desafio, de ordem política, diz respeito à postura do jornalismo e dos jornalistas diante dos interesses públicos, de corporações e do capital. Estamos, sim, vivendo num mundo capitalista em que as empresas precisam de anunciantes para sobreviverem, mas esse não é o único modo de fazer jornalismo: economia colaborativa, canais públicos e outras situaçoes se colocam como alternativas a esta lógica. Por último, um desafio de ordem filosófica, diz respeito a um estranhamento, a um papel educativo dos comunicadores, em especial dos jornalistas. A gente tem que sempre manter em mente que as pessoas aprendem com as notícias, aprendem a ler a realidade, aprendem sobre outras perspectivas e versões a respeito dos fatos. A gente não pode abrir mão desse papel social

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